quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Caos na Cultura Baiana!

Engraçada a cultura da Bahia!

Crônica de uma Cultura na UTI
Por Gideon Rosa*


Um pouco de humor não deve fazer mal para ninguém, não é verdade? Estive refletindo sobre a queda do secretário de educação Adeum Sauer. Aí, depois de perceber a rapidez com que ele foi defenestrado do governo, lembrei da resistência de Márcio Meireles. Apesar de ter cometido atrocidades infinitamente maiores, o rapaz continua no cargo, agarrado no pelo da vaca leiteira tal qual um carrapato rodoleiro. Minha conclusão simplista: a mãe-de-santo de Adeum Sauer, claro, não é a mesma de Márcio Meireles. Quando veio de Itabuna para a Bahia, ele deveria ter se consultado imediatamente com Márcio, pois ele consegue passar de um governo para o outro com uma indefectível cara de herói e grande artista, muito embora tenha um ódio mortal de seus pares. Não importa, da direita a esquerda (incluindo todos seus matizes), lá está Meireles fartando-se das verbas públicas, e isso vem desde os tempos dos militares.


Como assim? Ora, ora, esse monólito tem mais faces do que pode imaginar nossa vã filosofia. Fora outros arroubos comportamentais privados que não interessam a ninguém, podemos lembrar que ele transitava absoluto na Sala do Coro (então embrionária) do TCA, que era de uso quase exclusivo do grupo Avelãz y Avestruz. E ainda era o governo Roberto Santos. Em seguida, em 79, já no governo ACM, além do contínuo apoio do Estado, veio a benesse do extinto Serviço Nacional
de Teatro (SNT) e duas kombis caíram na mão do Avelãz y Avestruz, que assim pôde circular pelo Brasil. Depois, veio o governo João Durval, quando tudo continuou, mas ficou bom mesmo foi quando entrou Waldir, o breve. Aí foi a festa. Empossado diretor do Teatro Castro Alves
elaborou um mirabolante projeto de vender o TCA para construir, sob o Campo Grande, um estrondoso shopping cultural, com estacionamento, que desaguaria numa extraordinária visão da Bahia de Todos os Santos através de um subterrâneo que seria cavado até o Palácio do
Arcebispado, que hoje já virou edifício. Mas o resultado disso tudo foi entregar um TCA fechado, sem servir para coisa alguma. E os anos seguintes? A história da reconstrução do TVV é, por si, emblemática, pois com dinheiro privado é que não foi.


O cerne do problema da política cultural na Bahia é de incompetência. Locupletaram-se todos nos cargos, mas o que fazer? Não sabem, pois do governador até ao mais humilde assessor recém-empossado, há uma ignorância profunda sobre do que se trata mesmo esse negócio da
cultura. Se o governador pudesse avaliar competentemente o problema já teria trocado seu time nos primeiros seis meses, não esperaria sequer um ano, porque, está mais do que evidente que seu pessoal anda pisando na bola com os setores produtivos. Artistas ativos com até três
décadas de muito suor nas axilas (sim, porque artista varre chão, carrega peso, desmonta cenário, trabalha sem hora para terminar) estão todos impedidos de exercer seu ofício porque, uma vez empossado como secretário, ele resolveu vingar-se dos seus pares que não lhe renderam
homenagem. Como? Desacreditou todos os mecanismos que viabilizavam a produção, expulsou os parcos empresários que simpatizavam com as artes, e, em se tratando de verbas do Estado resolveu pulverizá-las para que ninguém mais produzisse qualquer ousadia. Em dois anos e meio
de poder absolutista, nosso secretário de cultura conseguiu produzir apenas mediocridades, eventos que já se perderam na bruma da memória, mas consumiram muito dinheiro público. Quanta diferença isso faria se esse montante tivesse sido jogado para incrementar a produção artística! Infelizmente, apenas o governador não consegue perceber o desastre que é tudo isso: a produção artística baiana foi jogada no retrocesso que nos remete ao início dos anos 80, ou antes.

Mas talvez, para quem está acostumado com a lide sindical, seja normal passar grande parte do tempo em inócuas reuniões, seminários e encontros, que jamais apresentaram qualquer resultado concreto, a não ser um surpreendente mapeamento territorial que servirá muito bem aos
propósitos de perpetuação no poder. Bem, talvez o objetivo seja apenas esse e, então, nada mais interessa e o que foi feito nesse sentido basta. Governador, em outubro próximo acontece em Salvador a segunda edição do Festival Internacional de Artes Cênicas (FIAC). Deveria ser
aquele momento em que brincantes daqui e de várias partes do Brasil e do mundo diriam uns aos outros: “Mostra o seu que eu mostro o meu”. Porque nos últimos dois anos a Bahia não fomentou produções artísticas significativas, não teremos o que mostrar de novo, a não ser que seja
um rol de repetições, ou as coisas do Vila, velho. Pois, sim, ao vencedor, as batatas!